Na teranóstica, exames ajudam a indicar quem pode receber lutécio-177

Na teranóstica, exames ajudam a indicar quem pode receber lutécio-177

Projeto CancerThera, apoiado pela Fapesp, avaliou mais de mil pacientes para investigar a presença do alvo PSMA em tumores diferentes.

Redação ·

Um exame pode ajudar a responder duas perguntas importantes no tratamento de alguns tumores: onde estão as lesões e se elas têm o alvo que um radiofármaco consegue reconhecer. Essa combinação de diagnóstico e terapia, chamada teranóstica, já tem uso clínico em casos selecionados de câncer de próstata e também está no centro de pesquisas no Brasil.

A lógica é usar uma molécula que se liga a uma característica das células tumorais. Para localizar essa característica, o paciente recebe um marcador radioativo detectável por exames de imagem, como o PET. Se os resultados mostrarem expressão suficiente do alvo e houver indicação médica, outro composto pode levar radiação até as lesões.

O exame ajuda a selecionar, não a prometer resultado

No câncer de próstata avançado, um dos alvos mais estudados é o PSMA, proteína que pode aparecer em maior quantidade nas células do tumor. A imagem com um traçador direcionado a esse alvo ajuda a verificar se a doença é compatível com a terapia. Em pacientes selecionados, o lutécio-177 ligado a uma molécula que reconhece o PSMA pode concentrar radiação nas áreas que captam o marcador.

A seleção importa porque tumores com o mesmo diagnóstico não são cópias uns dos outros. A quantidade de PSMA pode variar entre pessoas e até entre metástases do mesmo paciente. Se algumas lesões não expressarem o alvo em nível suficiente, elas podem não responder como as demais. Por isso, o exame não serve apenas para “ver” o câncer: ajuda a avaliar se aquela estratégia faz sentido para aquele caso.

Ensaios clínicos mostram benefício em grupos específicos, não em qualquer pessoa com câncer de próstata. No estudo internacional VISION, com 831 pacientes com doença metastática resistente à castração que já haviam recebido tratamentos sistêmicos, a combinação de lutécio-177 PSMA-617 com o tratamento padrão elevou a sobrevida global mediana de 11,3 para 15,3 meses. Também ampliou o tempo mediano sem progressão radiográfica, de 3,4 para 8,7 meses. Os números descrevem resultados de um grupo estudado; não permitem prever exatamente a resposta de cada paciente.

Personalizar a dose ainda é uma questão em aberto

A escolha do alvo já torna a abordagem mais direcionada, mas isso não significa que toda parte da terapia esteja ajustada individualmente. Em muitos protocolos, a quantidade administrada e o número de ciclos seguem esquemas definidos. A dosimetria tenta estimar quanta radiação chega ao tumor e a órgãos saudáveis, como rins, glândulas salivares e medula óssea.

Com essa informação, pesquisadores buscam entender se dá para adaptar a dose ou o intervalo entre ciclos para cada pessoa. A ideia é equilibrar o efeito sobre o tumor e a exposição dos tecidos normais. A medição é possível em centros especializados, mas ainda não existe um padrão universal que determine, para todos os pacientes, quantos ciclos devem ser feitos com base nessa conta.

O que a pesquisa brasileira está investigando

Em São Paulo, o CancerThera, centro de inovação apoiado pela Fapesp e ligado à pesquisa da Unicamp, estuda o uso do PSMA em diferentes tumores e a possibilidade de direcionar radiofármacos a outros alvos. A avaliação de mais de mil pacientes mencionada no projeto ajuda a investigar como a captação varia entre tipos de câncer e entre lesões de uma mesma pessoa.

Esse trabalho pode ampliar as perguntas que a medicina nuclear consegue fazer, mas pesquisa em andamento não equivale a tratamento já aprovado ou disponível para todos. Novos alvos e moléculas precisam passar por etapas de validação e estudos clínicos antes de se tornarem opções de rotina.

A disponibilidade também depende de uma cadeia complexa: produção de radioisótopos, preparação do medicamento, controle de qualidade, transporte e estrutura hospitalar. O Reator Multipropósito Brasileiro é um projeto estratégico para fortalecer a produção nacional de radioisótopos, mas não deve ser confundido com uma fonte já operacional de fornecimento amplo aos hospitais.

Por enquanto, a teranóstica combina uma ferramenta clínica com um campo de pesquisa em expansão. O principal ganho é permitir que a equipe avalie se existe um alvo compatível antes de indicar uma terapia direcionada — com decisões tomadas caso a caso e sem garantia de resposta igual para todos.

Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:

  1. https://super.abril.com.br/saude/o-que-e-a-teranostica-e-como-ela-pode-tornar-o-tratamento-do-cancer-mais-personalizado/
  2. https://cepid.fapesp.br/cancer-theranostics-innovation-center
  3. https://www.wikijournalclub.org/wiki/VISION
  4. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13458634/