Temor de bloqueio na volta mantém bispos da Nicarágua longe de Roma

Temor de bloqueio na volta mantém bispos da Nicarágua longe de Roma

Carlos Enrique Herrera Gutiérrez diz que a reunião foi remarcada para 2027, sem data, em meio ao risco de bispos não conseguirem voltar ao país.

Redação ·

A Igreja Católica da Nicarágua ficará sem a reunião coletiva com o papa Leão XIV prevista para este ano. A Santa Sé adiou a visita dos bispos a Roma para 2027, sem marcar uma nova data, enquanto o risco de autoridades impedirem o retorno de religiosos ao país pesa sobre a decisão. O anúncio foi feito em 28 de outubro por Carlos Enrique Herrera Gutiérrez, bispo de Jinotega e presidente da Conferência Episcopal nicaraguense.

A chamada visita ad limina reúne bispos de cada país no Vaticano, em geral a cada cinco anos. Além de conversar com o papa, eles apresentam aos órgãos da Santa Sé um panorama das dioceses que comandam. Para a Nicarágua, a última visita desse tipo ocorreu em 2017 — nove anos atrás.

Uma viagem com risco de não ter volta

Herrera, que vive no exílio desde novembro de 2024, explicou que não havia condições apropriadas para a participação dos bispos. A preocupação prática é que os religiosos que ainda estão na Nicarágua possam viajar a Roma e depois ser impedidos de voltar. Sem eles, comunidades e dioceses ficariam sem seus líderes.

Um sacerdote que atua no país, ouvido sob anonimato por receio de represálias, descreveu esse risco como um motivo de prudência. A cautela também ajuda a entender por que a visita não é apenas uma agenda diplomática: a saída simultânea de vários bispos poderia deixar a Igreja local mais vulnerável. A Santa Sé não apresentou publicamente uma explicação detalhada além da referência à falta de condições.

Uma conferência dividida pelo exílio

A Nicarágua tem nove bispos ativos; quatro estão fora do país. Além de Herrera, estão no exílio Silvio Báez, auxiliar de Manágua, e os bispos Isidoro Mora e Rolando Álvarez. Mora e Álvarez foram expulsos em janeiro de 2024; Báez deixou o país em 2019, depois de críticas ao governo de Daniel Ortega.

O afastamento de parte da hierarquia tem consequências concretas. Segundo a reportagem de origem, há uma proibição de ordenar diáconos e padres nas dioceses de Jinotega, Siuna, Matagalpa e Estelí, onde os bispos não estão presentes. A restrição reduz a capacidade dessas comunidades de formar novas lideranças religiosas localmente.

Relação deteriorada, data em aberto

O adiamento acontece em meio a uma relação muito tensa entre o governo de Ortega e a Igreja Católica. Pesquisadores e religiosos vêm apontando pressão sobre instituições e representantes católicos desde a crise política de 2018. Relatos recentes também descrevem a suspensão das relações diplomáticas entre a Nicarágua e a Santa Sé, o que estreita ainda mais os canais formais de diálogo.

A visita deste ano não foi substituída por uma reunião com todos os bispos. Herrera havia encontrado Leão XIV em Roma em 12 de outubro, durante um encontro internacional de presidentes de conferências episcopais, mas essa conversa individual não equivale à visita ad limina do episcopado nicaraguense. O próximo passo depende de a Santa Sé e a Conferência Episcopal encontrarem condições para reunir os religiosos sem colocá-los em risco. Por enquanto, 2027 é apenas o horizonte: não há dia marcado nem confirmação de que a situação permita a viagem.

Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:

  1. https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/vaticano-adia-visita-de-bispos-da-nicaragua-por-falta-de-condicoes-apropriadas/
  2. https://www.laprensani.com/2026/10/26/politica/3803768-santa-sede-no-vio-condiciones-para-que-todos-los-obispos-de-nicaragua-visitaran-a-leon-xiv
  3. https://www.thetablet.co.uk/news/nicaraguan-bishops-visit-rome-as-ortega-regime-tightens-grip/
  4. https://setemargens.com/nicaragua-perseguicao-religiosa-denunciada-na-comissao-interamericana-de-direitos-humanos/
  5. https://www.catholicworldreport.com/2026/10/30/holy-see-postpones-nicaraguan-bishops-ad-limina-visit/