SpaceX ganha peso estratégico após pedidos dos EUA sobre acesso por satélite

SpaceX ganha peso estratégico após pedidos dos EUA sobre acesso por satélite

Relatos atribuídos a seis ex-autoridades americanas incluem solicitações sobre Ucrânia, Irã, Iêmen e Líbano e expõem a dependência de governos da infraestrutura da empresa.

Redação ·

Os governos de Joe Biden e Donald Trump recorreram repetidamente à SpaceX para pedir mudanças de acesso ao Starlink em diferentes países, segundo reportagem publicada em 24 de outubro. Os pedidos, relatados por seis ex-autoridades seniores dos Estados Unidos que falaram sob anonimato, envolveriam desde apoio à conectividade na Ucrânia e no Irã até o bloqueio de terminais usados por grupos armados no Oriente Médio.

A revelação coloca em evidência uma questão que vai além da tecnologia: governos dependem de uma rede comercial para objetivos de segurança e política externa, mas a operação cotidiana do serviço está nas mãos de uma empresa privada. O tema ganhou urgência após relatos recentes de limitações à conexão usada por forças ucranianas.

Uma infraestrutura privada com alcance geopolítico

O Starlink é uma rede de internet via satélite operada pela SpaceX. Sua cobertura e capacidade de funcionar em locais onde redes terrestres estão danificadas ou são escassas fizeram do serviço uma ferramenta relevante em zonas de conflito e durante crises de conectividade. Na Ucrânia, a rede passou a apoiar comunicações militares e operações no campo de batalha desde a invasão russa em larga escala, em 2022.

A importância estratégica da rede cria uma relação pouco comum entre governos e uma companhia privada. Autoridades podem apresentar objetivos e fornecer informações, mas a execução de pedidos para habilitar, restringir ou identificar terminais depende de decisões técnicas e operacionais da SpaceX. Isso torna a continuidade do serviço uma variável com efeitos sobre comunicações civis e militares.

Pedidos atribuídos às administrações americanas

De acordo com os relatos reunidos pela Reuters, durante o governo Biden autoridades solicitaram que a SpaceX impedisse o uso do Starlink por grupos apoiados pelo Irã no Iêmen e no Líbano. As fontes também disseram que Washington pediu a ativação do serviço para apoiar a Ucrânia e facilitar o acesso à internet dentro do Irã, em meio aos protestos iniciados em 2022 após a morte de Mahsa Amini.

As solicitações relacionadas ao Iêmen e ao Líbano teriam incluído identificar e desligar terminais que, segundo informações compartilhadas pelo governo com a empresa, chegaram a grupos como os Houthis e o Hezbollah por intermediários. Pelo menos alguns aparelhos teriam sido desativados, conforme duas das fontes ouvidas. São informações atribuídas a pessoas não identificadas, e não a documentos públicos apresentados na reportagem.

Já no governo Trump, um ex-integrante sênior da administração e outra pessoa familiarizada com o assunto disseram que houve conversas sobre levar terminais ao Irã e ativar o serviço após ataques americano-israelenses em 2025 e 2026. A finalidade seria ampliar o acesso à comunicação de manifestantes. A Casa Branca e a SpaceX não confirmaram publicamente a ativação desses terminais.

A Ucrânia e as limitações recentes

O debate ganhou novo peso após autoridades ucranianas relatarem, em outubro, restrições ao Starshield — serviço da SpaceX voltado a clientes governamentais e de segurança, baseado na constelação Starlink. O presidente Volodymyr Zelensky afirmou que limitações afetaram a conectividade militar e o uso de drones. A origem exata das medidas e a cadeia de decisão foram objeto de relatos contraditórios e de reportagens baseadas em fontes anônimas.

Elon Musk declarou que os sistemas Starshield pertencem e são controlados pelo governo dos Estados Unidos, e que eventuais limites de uso cabem às autoridades americanas. Essa afirmação não elimina a dependência operacional da companhia que mantém a infraestrutura. Em 2022, segundo reportagens anteriores, Musk também havia decidido restringir cobertura em áreas da Ucrânia; o episódio já levantava dúvidas sobre quem controla uma ferramenta importante para as operações do país.

Alternativas ainda não substituem a rede

A crise alimenta discussões na Europa sobre desenvolver opções próprias de comunicação por satélite para reduzir a dependência de uma empresa americana. A OneWeb, operada pela europeia Eutelsat, é citada como alternativa disponível, mas sua constelação tem escala menor que a Starlink, segundo informações publicadas nesta semana. Trocar de sistema exige mais do que satélites: são necessários terminais compatíveis, contratos, cobertura adequada e integração com as comunicações militares.

Para a Ucrânia e seus parceiros, o desafio é manter conexões confiáveis sem deixar uma capacidade crítica exposta a decisões empresariais ou políticas tomadas fora do país. A reportagem não confirma publicamente cada pedido atribuído aos governos americanos, mas evidencia a dimensão estratégica que o acesso a redes comerciais adquiriu em conflitos e disputas internacionais.

Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:

  1. https://olhardigital.com.br/2026/10/24/pro/eua-pediram-a-musk-por-anos-para-alterar-servico-da-starlink-na-ucrania-oriente-medio-e-ira/
  2. https://www.reuters.com/business/autos-transportation/us-has-years-asked-musk-alter-starlink-service-ukraine-middle-east-sources-say-2026-10-24/
  3. https://www.reuters.com/world/europe/order-limit-starshield-ukraine-came-inside-white-house-sources-say-2026-10-15/
  4. https://www.cnbc.com/2026/10/22/elon-musk-ukraine-starlink-alternatives.html
  5. https://arstechnica.com/gadgets/2026/10/ukraine-learns-to-fight-without-starlink-as-musk-plays-politics-with-satellites/