Senado francês endurece projeto que pode cobrar danos de manifestantes

Senado francês endurece projeto que pode cobrar danos de manifestantes

A proposta foi aprovada por 229 votos a 105 e ainda precisa avançar no Parlamento antes de eventual promulgação.

Redação ·

O Senado francês aprovou na madrugada de 28 de outubro um projeto que pode ampliar a cobrança por danos ocorridos em manifestações e endurecer medidas contra distúrbios. A votação terminou em 229 votos a 105, mas não encerra a tramitação: o texto ainda não é uma lei em vigor e poderá sofrer mudanças nas próximas etapas parlamentares.

A iniciativa, conhecida na França como “casseurs-payeurs” — algo como “quem depreda paga” — ganhou força após episódios de violência, saques e depredações registrados em 17 de outubro. A discussão agora combina duas questões de impacto público: como reparar prejuízos causados em tumultos e até onde o Estado pode ampliar a responsabilização sem restringir direitos de manifestação.

O que muda na proposta

O projeto cria mecanismos para responsabilizar financeiramente pessoas envolvidas em atos de violência ou destruição durante concentrações. Uma das medidas discutidas prevê cobranças que podem chegar a 10 mil euros por pessoa em determinadas situações. O texto também abre caminho para atribuir responsabilidade a participantes de um grupo que tenha se organizado para cometer danos, mesmo quando não se consiga demonstrar que cada integrante causou individualmente um prejuízo específico.

A versão aprovada pelo Senado foi ampliada durante a tramitação. Entre os dispositivos divulgados estão a possibilidade de apreender determinados benefícios sociais para pagar valores devidos, além de medidas adicionais de segurança e de investigação. A extensão das sanções e as condições para aplicá-las dependerão do texto final, caso ele seja aprovado pelas demais instâncias e promulgado.

Uma votação, não uma lei definitiva

O resultado de 28 de outubro representa uma etapa do processo legislativo francês. A comissão de leis do Senado já havia examinado e alterado a proposta na semana anterior; agora, depois da votação em plenário, o texto deverá seguir para as etapas parlamentares seguintes. A versão final pode ser negociada ou modificada antes de qualquer promulgação.

Essa distinção importa na prática: as medidas anunciadas não devem ser tratadas como regras já aplicáveis a manifestantes ou beneficiários. Até a conclusão do processo, o conteúdo pode mudar e ainda precisará cumprir os procedimentos legais para entrar em vigor. A votação, porém, sinaliza que a responsabilização por danos em protestos se tornou prioridade para os senadores que apoiaram o projeto.

O debate sobre responsabilidade e direitos

A proposta é controversa porque desloca a discussão para além da punição criminal de quem pratica diretamente um ato. A responsabilização financeira de pessoas associadas a um grupo pode facilitar a reparação de prejuízos, mas também levanta dúvidas sobre como provar participação, intenção e vínculo com os danos. Essa fronteira será central para avaliar os efeitos do texto, caso sobreviva às próximas etapas.

Parlamentares de esquerda criticaram o projeto e alertaram para riscos à liberdade de manifestação e para a possibilidade de uma responsabilização coletiva. Seus defensores, por outro lado, sustentam que os custos de depredações não devem recair apenas sobre comerciantes, moradores ou poder público. O alcance real dessas posições dependerá da redação final e de como as regras forem aplicadas.

O que acompanhar agora

O próximo ponto é a continuidade da tramitação e a comparação entre as versões parlamentares. Também será necessário observar quais sanções permanecerão no texto, que garantias serão previstas para contestar cobranças e quais danos poderão ser atribuídos a cada pessoa.

Para quem vive ou trabalha em áreas afetadas por manifestações, a proposta pode alterar a forma de reparação de prejuízos. Para participantes de protestos, a questão é igualmente concreta: as regras poderão ampliar a exposição a cobranças e medidas de segurança, mas ainda não estão em vigor. A votação abre uma nova fase do debate francês sobre ordem pública, proteção de bens e limites da ação estatal.

Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:

  1. https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/apos-protestos-violentos-senado-franca-aprova-lei-mais-rigida-contra-saques-disturbios/
  2. https://www.rfi.fr/en/france/20261028-french-senate-toughens-proposals-to-make-rioters-pay-for-damage
  3. https://www.rtl.fr/actu/politique/la-prime-d-activite-pourra-etre-saisie-le-senat-approuve-et-durcit-le-projet-de-loi-casseurs-payeurs-apres-les-debordements-du-17-octobre-7900689933
  4. https://www.senat.fr/rap/l26-086/l26-0861.pdf
  5. https://www.france24.com/fr/info-en-continu/20261021-casseurs-payeurs-apr%C3%A8s-les-violences-du-17-octobre-la-r%C3%A9ponse-l%C3%A9gislative-au-s%C3%A9nat