Em Roma, encontro acadêmico reabre debate sobre a diplomacia da Santa Sé
A conferência na Pontifícia Universidade Gregoriana, em 28 e 29 de outubro, reuniu pesquisadores e incluiu uma exposição sobre a Polônia.
Redação ·
Uma conferência em Roma colocou novamente sob análise as escolhas diplomáticas da Santa Sé diante de regimes autoritários do século XX. O encontro ocorreu em 28 e 29 de outubro de 2026, na Pontifícia Universidade Gregoriana, com pesquisadores discutindo desde a relação com a Alemanha nazista até iniciativas de socorro a pessoas perseguidas.
O evento, organizado pelo Instituto da Memória Nacional da Polônia e pelo Pontifício Comitê de Ciências Históricas, não anunciou uma nova abertura de arquivos. A proposta foi revisitar documentos e interpretações já disponíveis, além de apresentar uma exposição sobre as celebrações do milênio do Batismo da Polônia, realizadas em 1966.
O equilíbrio entre protesto e proteção
Um dos pontos centrais é o dilema enfrentado pela diplomacia vaticana: denunciar publicamente governos que perseguiam grupos e restringiam a Igreja ou agir com cautela para evitar represálias contra pessoas vulneráveis. O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, defendeu durante o encontro que essa atuação também precisa ser entendida como tentativa de proteger comunidades sob pressão.
A discussão não encerra a controvérsia histórica. A cautela pública da Igreja durante a Segunda Guerra Mundial continua sendo debatida: para alguns, a discrição ajudou a preservar canais de assistência; para outros, faltou uma condenação mais explícita das perseguições e do Holocausto. O encontro reuniu perspectivas de pesquisa, não uma conclusão definitiva sobre esse debate.
Antes da guerra, Pio XI adotou negociações com diferentes governos para tentar resguardar a atuação da Igreja. Entre os marcos desse período estão os Pactos de Latrão com a Itália fascista e a Concordata firmada com a Alemanha em 1933. Acordos, porém, não impediram a repressão nazista contra organizações católicas e instituições religiosas.
O que os arquivos podem esclarecer
O pontificado de Pio XII, entre 1939 e 1958, concentra parte importante das perguntas. A Santa Sé manteve uma linguagem pública geralmente cuidadosa durante a guerra, enquanto o papel de redes religiosas no auxílio a perseguidos segue sendo estudado. Entre os temas da conferência estavam a ajuda prestada por religiosas na Itália e a atuação diplomática relacionada ao salvamento de judeus húngaros.
Desde março de 2020, pesquisadores podem consultar os arquivos do pontificado de Pio XII, antes fechados. O acervo reúne milhões de páginas e oferece material para examinar correspondências, pedidos de ajuda e decisões internas. A abertura não significa que cada documento tenha uma interpretação única: o trabalho histórico depende de cruzar registros e considerar o contexto em que foram produzidos.
Por isso, o encontro em Roma é sobretudo uma etapa de discussão acadêmica, não a divulgação de uma revelação isolada. A exposição paralela também recupera as comemorações polonesas de 1966, com imagens e documentos ligados à Igreja na Polônia. Juntas, as atividades mostram como a história da diplomacia vaticana passa tanto por decisões institucionais quanto por ações de comunidades locais.
A pergunta que permanece é como medir os efeitos de uma estratégia reservada em circunstâncias extremas. Os novos estudos podem ampliar o quadro documental e dar visibilidade a iniciativas de assistência, mas não apagam as disputas sobre o que a Santa Sé poderia — ou deveria — ter feito diante das perseguições.
Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:
- https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/vaticano-revela-como-enfrentou-nazismo-e-regimes-totalitarios-do-seculo-20/
- https://www.vaticannews.va/en/pope/news/2026-10/the-vatican-and-totalitarian-regimes-rome-revisits-hard.html
- https://www.vaticannews.va/en/vatican-city/news/2026-10/cardinal-parolin-gregorian-conference-20th-century-regimes.html
- https://www.vaticannews.va/fr/vatican/news/2020-03/archives-pie-xii-revelent-une-attention-constante-aux-juifs.html