Rogério Xavier condiciona aposta no Brasil a um plano fiscal confiável

Rogério Xavier condiciona aposta no Brasil a um plano fiscal confiável

O cofundador da SPX diz que a gestora espera conhecer a equipe econômica e as medidas do novo mandato antes de ampliar posições; os juros seguem no centro da cautela.

Redação ·

A SPX Capital não pretende aumentar sua exposição ao Brasil antes de conhecer quem comandará a economia no novo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva e quais medidas fiscais serão propostas. Em entrevista publicada nesta quinta-feira, 29 de outubro, o cofundador da gestora, Rogério Xavier, disse que a equipe quer avaliar fatos e fazer as contas antes de assumir mais risco.

A mensagem vem depois de uma forte oscilação nos preços dos ativos brasileiros. Para Xavier, parte do mercado se posicionou antes de haver confirmação do cenário político e acabou corrigindo as apostas. O gestor afirma que a SPX reduziu o risco das carteiras antes do segundo turno; com isso, o fundo multimercado Nimitz caiu 0,6% na segunda-feira, enquanto a média da categoria recuou cerca de 4%, segundo dados citados na entrevista.

O que a gestora espera do governo

Xavier vê a situação fiscal como o principal teste de curto prazo. Na avaliação dele, o Brasil precisa mostrar como pretende conter o crescimento da dívida e recuperar a confiança de quem financia o governo. Uma equipe econômica com credibilidade e medidas consistentes poderiam, segundo o gestor, abrir espaço para uma leitura mais favorável dos ativos brasileiros.

Isso ainda é uma avaliação de mercado, não uma política anunciada. O ponto prático é que investidores cobram juros maiores quando consideram mais arriscado emprestar ao governo. Taxas elevadas encarecem a rolagem da dívida pública e também influenciam o crédito para empresas e famílias. A decisão do Banco Central sobre a Selic não depende só desse fator, mas um quadro fiscal pressionado pode dificultar a queda dos juros.

Por que a cautela não significa uma crise instalada

Xavier diferencia o risco de uma deterioração futura de uma situação de dominância fiscal já em curso. Ele argumenta que o Tesouro ainda consegue emitir e financiar sua dívida, embora veja sinais de alerta na combinação de juros reais altos e inflação persistente. Na leitura do gestor, o mercado está cobrando um prêmio elevado, mas isso não prova, por si só, que o Estado tenha perdido a capacidade de conduzir suas políticas.

A curva de juros e o câmbio ajudam a acompanhar essa percepção, mas não contam a história inteira. A exposição de investidores estrangeiros ao Brasil, por exemplo, já é baixa, enquanto instituições e poupadores locais carregam parte importante dos títulos públicos. Uma mudança brusca de confiança poderia alterar esse equilíbrio; Xavier diz que não vê evidência de uma fuga generalizada neste momento.

A disputa por capital também é global

O cenário externo acrescenta outra camada de incerteza. Na análise de Xavier, governos e empresas disputam recursos num ambiente de endividamento elevado, enquanto companhias de inteligência artificial atraem grandes volumes de investimento. A aposta na tecnologia pode elevar a produtividade no futuro, mas os custos aparecem antes dos ganhos, que dependem de tempo e de resultados concretos.

Um boletim do Ministério da Fazenda registrou a expansão das emissões de dívida ligadas à infraestrutura de IA e estimou esse volume em US$ 266 bilhões em 2026. O dado ajuda a explicar por que o entusiasmo com o setor convive com perguntas sobre retorno e financiamento. Se as receitas não acompanharem as expectativas, uma reavaliação das empresas pode afetar bolsas e o apetite global por ativos de maior risco.

No Brasil, a combinação de juros altos, incerteza fiscal e disputa internacional por recursos pesa sobre a Bolsa e sobre decisões de investimento. Ainda assim, Xavier não descreve o quadro como irreversível: a possibilidade de ampliar posições dependerá do que o governo apresentar, não apenas de declarações. Até lá, a postura da SPX é esperar.

Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:

  1. https://braziljournal.com/rogerio-xavier-lula-precisa-dar-choque-de-credibilidade
  2. https://www.gov.br/fazenda/pt-br/central-de-conteudo/publicacoes/conjuntura-economica/boletim-macrofiscal/2026/apresentacao-boletim-macrofiscal-setembro-2026.pdf/@@download/file
  3. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/macroeconomia/desequilibrio-fiscal-juros-e-endividamento-desafios-economicos-de-lula-4/
  4. https://www.spacemoney.com.br/economia/macroeconomia/decisao-fed-balancos-risco-fiscal/
  5. https://portalibre.fgv.br/sites/default/files/2026-10/2026-10-boletim-macro.pdf