Rio Doce soma 47,9 mil hectares cercados, mas a recuperação ainda precisa ser comprovada
Balanço divulgado em outubro também contabiliza 4,6 mil nascentes protegidas, diante da meta de 5 mil prevista no acordo de reparação.
Redação ·
Na Bacia do Rio Doce, os números mais recentes da restauração mostram uma operação de grande escala — e também o tamanho do trabalho que ainda falta medir. Até setembro de 2026, 47,9 mil hectares estavam cercados para recuperação e 4,6 mil nascentes eram apontadas como protegidas, segundo dados divulgados pelos responsáveis pelas ações. A meta ambiental do Novo Acordo do Rio Doce inclui restaurar 50 mil hectares e recuperar 5 mil nascentes.
Esses totais são indicadores de atividades em andamento, não uma confirmação de que a floresta e os cursos d’água já voltaram às condições anteriores. Para entender o avanço, é preciso acompanhar o que acontece depois do cercamento e do plantio: se as mudas sobrevivem, se a vegetação nativa se estabelece e se o solo e a água respondem ao longo do tempo.
O trabalho muda de um lugar para outro
A restauração ocorre numa bacia extensa, com áreas atingidas de formas diferentes pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG). Em novembro de 2015, o colapso liberou rejeitos que seguiram por cursos d’água, afetando margens, habitats e propriedades rurais. Não existe uma técnica única que resolva o problema em todo o território.
Entre as medidas adotadas estão proteger áreas com cercas, favorecer a regeneração natural, plantar espécies nativas e recuperar trechos de margem. Em alguns locais, o plantio ajuda a recompor a cobertura vegetal; em outros, a prioridade é evitar que o pisoteio de animais e a erosão atrapalhem o retorno da vegetação. O edital federal Restaura Rio Doce, por exemplo, prevê uma iniciativa própria para restaurar 10 mil hectares, com métodos como regeneração assistida e plantio de espécies nativas.
O que os números dizem — e o que não dizem
O balanço divulgado indica que o programa se aproxima das metas anunciadas: 47,9 mil hectares cercados frente a 50 mil previstos, e 4,6 mil nascentes protegidas diante de um objetivo de 5 mil. Mas “cercado” e “protegido” descrevem ações realizadas; não medem, por si só, a qualidade ecológica alcançada. Cercar uma nascente, por exemplo, pode reduzir a pressão de animais sobre a área, mas não comprova automaticamente que a água esteja recuperada.
A avaliação ambiental precisa observar indicadores ao longo de vários anos, como a sobrevivência das mudas, a diversidade de espécies, a estabilidade das margens e a qualidade da água. Também importa saber onde cada intervenção ocorreu e quais áreas ainda precisam de manutenção. Sem esse acompanhamento público, os totais ajudam a contar o esforço, mas não bastam para concluir que os ecossistemas se recompuseram.
Quem executa e quem acompanha
O acordo de repactuação foi assinado em 25 de outubro de 2024 e homologado judicialmente em novembro daquele ano. Ele reorganizou responsabilidades e destinou recursos para medidas de reparação e compensação. Os governos federal e estaduais também têm iniciativas próprias; por isso, metas que aparecem em documentos públicos podem abranger componentes diferentes, como áreas diretamente atingidas, reflorestamento compensatório e projetos específicos. Não se deve somar esses números sem conferir o que cada um inclui.
Para quem vive na bacia, a recuperação não é só uma conta de árvores. A vegetação das margens ajuda a proteger o solo, reduzir erosão e dar suporte a nascentes e habitats. O desafio agora é transformar os hectares protegidos em resultados ecológicos duradouros — e tornar os dados de monitoramento claros o bastante para que qualquer pessoa consiga acompanhar essa mudança.
Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:
- https://super.abril.com.br/ciencia/entenda-o-processo-de-recuperacao-das-florestas-da-bacia-do-rio-doce/
- https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/assuntos-transversais/novo-acordo-do-rio-doce/transparencia-do-fundo-rio-doce/edital-restaura-rio-doce
- https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/assuntos-transversais/novo-acordo-do-rio-doce
- https://mpes.mp.br/noticias/2025/11/05/ministerio-publico-reafirma-compromisso-com-reparacao-e-justica-socioambiental-nos-10-anos-do-desastre-do-rio-doce/