Redes sociais ampliam vozes, mas não explicam sozinhas a ansiedade

Redes sociais ampliam vozes, mas não explicam sozinhas a ansiedade

Em coluna publicada na Gazeta do Povo em 28 de outubro, Gustavo Maultasch relaciona a comunicação digital à contestação de instituições; pesquisas indicam efeitos variados conforme o tipo de uso.

Redação ·

A internet mudou quem consegue falar em público — e também o volume de informação, conflito e comparação que chega a cada pessoa. Em coluna publicada na Gazeta do Povo nesta quarta-feira, 28 de outubro, Gustavo Maultasch defende que as mídias digitais ajudam a reduzir a distância entre cidadãos e instituições. A relação entre essa abertura e a ansiedade, porém, pede mais cuidado do que uma explicação única.

Mais gente pode questionar quem tem poder

O argumento de Maultasch parte de uma mudança na circulação da informação. Antes da internet, jornais, emissoras e outras instituições tinham papel central para definir o que ganhava alcance. Redes sociais e plataformas digitais ampliaram os caminhos para publicar denúncias, contestar versões oficiais e organizar conversas sem depender dos mesmos intermediários.

Isso não significa que toda publicação seja confiável ou que a internet tenha eliminado os filtros. Algoritmos, moderação, alcance desigual e desinformação também moldam o que as pessoas veem. Ainda assim, a possibilidade de responder publicamente a uma autoridade ou a uma empresa alterou a dinâmica do debate: reputações e decisões podem ser questionadas em escala e velocidade maiores.

O que a pesquisa consegue dizer sobre ansiedade

A conexão com a saúde mental é menos simples. Uma meta-análise publicada em 2024 encontrou associação entre uso problemático de redes sociais e sintomas de ansiedade, incluindo ansiedade generalizada. Associação, aqui, não prova que a plataforma tenha causado o quadro: pode haver influência em mais de uma direção, além de outros fatores pessoais e sociais.

Uma revisão sistemática chegou a uma distinção importante: o efeito parece depender também de como a rede é usada. Interações positivas, apoio social e sensação de conexão apareceram ligados a menos sintomas em alguns estudos; experiências negativas e comparação social, a mais ansiedade. Ou seja, somar horas de tela sem olhar para o conteúdo e para o contexto pode esconder diferenças relevantes.

Liberdade e sobrecarga podem coexistir

A abertura de canais de expressão tem ganhos concretos, mas não torna o ambiente automaticamente mais tranquilo. A mesma rede que permite encontrar apoio pode expor alguém a conflitos, cobrança por aprovação, julgamento e fluxo constante de notícias. Para algumas pessoas, isso pesa; para outras, o contato digital pode reforçar vínculos que não encontrariam com facilidade fora dali.

Também vale separar ansiedade cotidiana de um diagnóstico clínico. Sentir-se sobrecarregado por notificações ou por debates intensos não equivale, por si só, a ter transtorno de ansiedade generalizada. As pesquisas citadas estudam associações e padrões de uso; elas não autorizam atribuir um transtorno à tecnologia sem avaliação individual.

O debate não é só sobre desligar o celular

A coluna de Maultasch amplia a discussão para o efeito político das novas mídias: quando mais pessoas conseguem contestar instituições, cresce a pressão por transparência e prestação de contas. Esse processo pode gerar atrito e desorientação, mas reduzir a conversa a um problema de tela deixa de lado a pergunta sobre quem controla a circulação de informação e quais espaços de participação existem.

Para o leitor, a distinção prática é útil: avaliar o que se consome, como as interações afetam o bem-estar e se o uso está substituindo relações importantes pode ajudar a reconhecer sinais de sobrecarga. Isso não transforma uma questão social ampla em responsabilidade individual, nem substitui ajuda profissional quando os sintomas persistem.

A tecnologia pode abrir portas para a participação e, ao mesmo tempo, criar novas fontes de pressão. A evidência disponível sustenta essa tensão — não uma conclusão de que as redes, sozinhas, expliquem a ansiedade.

Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:

  1. https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/gustavo-maultasch/tecnologias-da-liberdade-e-a-nossa-ansiedade-generalizada/
  2. https://link.springer.com/article/10.1186/s40359-024-01705-w
  3. https://mental.jmir.org/2016/4/e50
  4. https://www.apaservices.org/practice/update/2017/02-23/technology-anxiety