Miriã Salles mostra como o debate político vira aula de convivência para crianças

Miriã Salles mostra como o debate político vira aula de convivência para crianças

A pedagoga relaciona atitudes cotidianas dos adultos ao aprendizado infantil na reta final da votação de 25 de outubro de 2026.

Redação ·

Às vésperas do segundo turno das eleições gerais, marcado para 25 de outubro, a pedagoga Miriã Salles propõe olhar para além dos discursos dos candidatos: crianças também acompanham como os adultos lidam com divergências. Em artigo publicado nesta quinta-feira, 22 de outubro, ela argumenta que conversas em casa, reações nas redes e até a forma de admitir um erro ajudam a compor o repertório que os mais novos usam para compreender a vida em grupo.

A discussão não exige que pais escondam suas convicções nem que finjam concordância. O ponto, segundo a reflexão de Salles, é mostrar que discordar de uma proposta não obriga ninguém a transformar o interlocutor em inimigo. Essa distinção ganha visibilidade numa campanha que concentra opiniões e emoções, justamente quando faltam poucos dias para a votação.

O exemplo aparece nas pequenas situações

A aprendizagem não acontece apenas quando um adulto senta para explicar o que é democracia. Crianças observam como alguém reage ao ser contrariado, conversa com parentes de outra posição ou comenta uma notícia compartilhada no celular. Também percebem se a crítica se dirige a uma ideia ou se vira deboche e ataque à pessoa.

A psicologia oferece uma maneira de entender esse mecanismo. A aprendizagem por observação descreve como atitudes, valores e formas de agir podem ser adquiridos ao acompanhar modelos. Isso não significa que uma criança imite automaticamente tudo o que vê, nem que a família determine suas opiniões futuras; significa que o comportamento dos adultos pode integrar as referências disponíveis para ela.

Discordar sem apagar limites

Respeitar quem pensa diferente não equivale a tratar toda afirmação como verdadeira ou toda posição como aceitável. É possível questionar uma proposta, pedir evidências e rejeitar falas que ameacem direitos ou incentivem violência sem recorrer à humilhação. Para a criança, esse contraste ajuda a mostrar que firmeza e agressividade não são a mesma coisa.

Na prática, adultos podem explicar por que apoiam uma ideia e, ao mesmo tempo, escutar a pergunta de uma criança sem transformar a conversa em disputa. Também podem diferenciar fato, opinião e previsão. Na reta final da eleição, uma notícia recebida por mensagem pode servir de ocasião para conferir quem a publicou, quando foi divulgada e se há confirmação em fontes independentes, em vez de encaminhá-la no impulso.

Admitir uma falha também ensina

Salles chama atenção para a distância que às vezes existe entre o que se defende e a maneira de agir. Ninguém precisa sustentar uma imagem de adulto infalível: reconhecer que exagerou, corrigir uma informação ou pedir desculpas torna visível como se repara um erro. Essa demonstração é mais concreta do que exigir das crianças uma postura que os próprios adultos não praticam.

A educação midiática também envolve esse cuidado com o que se consome e se repassa. A UNESCO inclui crianças e jovens entre os públicos para os quais a alfabetização midiática e informacional é relevante. Em ambiente eleitoral, isso pode significar conversar sobre a origem de uma afirmação e seu contexto, sem classificar toda discordância como desinformação.

A conversa continua depois da votação

O segundo turno ocorre em 25 de outubro, das 8h às 17h, no horário de Brasília, conforme o calendário eleitoral. Mas a observação infantil não se limita ao dia da urna: a maneira como adultos reagem a um resultado, convivem com quem escolheu diferente e retomam a rotina também comunica algo sobre participação e regras coletivas.

O texto de Miriã Salles não apresenta uma fórmula para moldar a opinião política dos filhos. Seu convite é mais cotidiano: adultos podem transformar a divergência em oportunidade para mostrar escuta, verificação e respeito, sem abandonar suas próprias convicções. É uma forma de tratar a democracia não só como escolha de candidatos, mas como prática de convivência.

Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:

  1. https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/o-que-os-pais-podem-ensinar-aos-filhos-durante-a-eleicao/
  2. https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Marco/eleicoes-2026-confira-as-principais-datas-do-calendario-eleitoral
  3. https://www.unesco.org/en/articles/do-you-trust-what-you-watch-or-read
  4. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/pdf/10.1002/9781405186407.wbieco004