Mercado de elétricos no Brasil acelera, mas pós-venda ainda fica para trás

Mercado de elétricos no Brasil acelera, mas pós-venda ainda fica para trás

A participação dos eletrificados chegou a 16% das vendas de veículos leves no primeiro semestre de 2026, enquanto oficinas e serviços especializados tentam acompanhar a expansão.

Redação ·

O crescimento dos carros elétricos e híbridos no Brasil já aparece nos números de venda, mas a estrutura necessária para mantê-los e revendê-los ainda está em formação. O avanço amplia as opções para quem procura um veículo eletrificado, ao mesmo tempo que deixa questões práticas para os compradores: onde reparar o carro, como avaliar a bateria de um usado e quanto ele poderá valer alguns anos depois.

Mais veículos nas ruas, um pós-venda em construção

Eletrificados responderam por 16% das vendas brasileiras de veículos leves no primeiro semestre de 2026, quase o dobro dos 8,7% registrados no mesmo intervalo do ano anterior, segundo dados do ICCT citados pela imprensa. A expansão também aparece nas importações: elétricos a bateria e híbridos plug-in representaram 70% dos veículos leves importados no período, ante 56% no primeiro semestre de 2024.

A oferta crescente, impulsionada em parte por fabricantes chineses, faz com que a experiência de uso e manutenção pese mais na decisão de compra. Veículos elétricos exigem menos componentes mecânicos sujeitos a desgaste, mas o reparo de sistemas de alta tensão e eletrônica demanda equipamentos e formação específicos. Sem alternativas suficientes às concessionárias, proprietários podem enfrentar deslocamentos maiores e menos opções de atendimento, especialmente fora dos grandes centros.

A oficina independente ainda precisa se adaptar

Um levantamento atribuído ao Sindirepa-PR aponta que cerca de 99% das oficinas independentes ligadas à entidade não têm equipamentos ou treinamento para atender veículos híbridos e elétricos. O dado é regional e não representa todas as oficinas do país, mas ilustra a dimensão da lacuna de qualificação no setor de reparação.

Essa limitação pode afetar custos e prazos quando o veículo sai da garantia ou precisa de um diagnóstico especializado. Para o mercado de usados, a cobertura de assistência e a disponibilidade de peças também podem influenciar a confiança do comprador. A expansão de cursos técnicos, ferramentas adequadas e protocolos de segurança será importante para que a rede de reparos acompanhe o tamanho da frota.

Bateria e preço de revenda caminham juntos

A bateria é um dos pontos centrais na avaliação de um elétrico usado. Um dado citado na reportagem de origem indica que modelos elétricos chineses com três anos podem conservar cerca de 42% do valor inicial. Esse número deve ser lido como uma estimativa de mercado, e não como uma regra aplicável a todos os modelos: preço de compra, quilometragem, garantia, marca e condição do veículo podem mudar bastante o resultado.

Um levantamento internacional da Geotab, com mais de 22,7 mil veículos de 21 modelos, encontrou degradação média da bateria de 2,3% ao ano. Nos grupos com uso frequente de recarga rápida em corrente contínua acima de 100 kW, a taxa chegou a 3%. A média não prevê o desempenho de cada automóvel brasileiro, mas ajuda a mostrar por que um relatório confiável sobre a saúde da bateria pode ser decisivo numa negociação.

A cadeia precisa ir além da venda

A avaliação dos usados depende também de serviços capazes de diagnosticar módulos e determinar a capacidade restante da bateria. Quando ela perde utilidade para a tração, pode haver possibilidade de reparo, reaproveitamento estacionário ou reciclagem; o país, porém, ainda precisa ampliar e organizar essa cadeia. Sem critérios conhecidos de inspeção e destinação, consumidores e lojistas têm menos referências para calcular custos e riscos.

Há ainda questões de infraestrutura e financiamento das vias. Veículos elétricos não consomem combustíveis sobre os quais incidem tributos que ajudam a compor receitas relacionadas à mobilidade, enquanto o peso de alguns modelos pode elevar o esforço sobre pneus e pavimentos. A criação de cobranças específicas aparece no debate, mas não equivale a um imposto nacional já aprovado. O desafio para o Brasil é preparar regras, serviços e infraestrutura sem transformar incertezas de hoje em barreiras para quem considera migrar para um carro eletrificado.

Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:

  1. https://www.gazetadopovo.com.br/automoveis/brasil-enfrenta-gargalos-na-manutencao-e-revenda-de-carros-eletricos/
  2. https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2026/10/23/governo-busca-diagnostico-sobre-recarga-de-veiculos-eletricos-apos-vendas-dispararem-no-brasil.amp.htm
  3. https://exame.com/esg/carros-eletricos-e-hibridos-sao-16-das-vendas-mas-avanco-esbarra-em-infraestrutura/
  4. https://www.autodata.com.br/noticias/2026/10/20/abve-preve-que-eletrificados-alcancem-30-das-vendas-de-veiculos-leves-em-2027/138063/
  5. https://www.gazetadopovo.com.br/automoveis/futuro-carros-eletricos-brasil-experiencia-outros-paises/