Lula e Flávio Bolsonaro terão de conciliar promessas com aperto fiscal em 2027
A IFI projeta déficit de R$ 86,1 bilhões para o próximo ano, enquanto o projeto de Orçamento do governo prevê superávit de R$ 18,6 bilhões.
Redação ·
A disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno de domingo, 25 de outubro, com uma questão que atravessa qualquer promessa de governo: como financiar prioridades em um Orçamento com pouco espaço para novas despesas. Para 2027, a Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado, calcula déficit primário de R$ 86,1 bilhões; a proposta orçamentária do Executivo, por sua vez, prevê superávit de R$ 18,6 bilhões.
A distância entre as estimativas expõe o tamanho do desafio que aguarda o próximo presidente. O resultado projetado pela IFI considera o saldo efetivo das contas, enquanto a meta oficial segue as regras fiscais e as deduções permitidas. Para cumprir formalmente essa meta, a instituição estima que pode ser necessário contingenciar R$ 35,7 bilhões em despesas discricionárias — verbas de custeio e investimento que o governo consegue manejar com mais facilidade.
O que os números dizem sobre a margem de manobra
Na prática, um contingenciamento pode reduzir ou adiar obras, compras e serviços públicos. Não significa, por si só, que todo o valor será cortado de forma definitiva, mas mostra que a execução do Orçamento pode depender de bloqueios ao longo do ano. Com a maior parte das despesas vinculada a regras legais, sobra menos espaço para acomodar novas prioridades sem rever escolhas ou buscar receitas.
A IFI também trabalha com premissas econômicas diferentes das usadas pelo Executivo, entre elas uma expansão menor da atividade. Se a economia crescer menos do que o previsto, a arrecadação tende a decepcionar; isso pode ampliar a distância entre o plano orçamentário e o dinheiro efetivamente disponível. O resultado fiscal afeta ainda a percepção de risco, o custo de financiamento do governo e, indiretamente, as condições de crédito para empresas e famílias.
Duas estratégias para enfrentar a conta
Flávio Bolsonaro apresenta uma agenda de redução de despesas, diminuição de tributos, privatizações e enxugamento da estrutura administrativa. Entre as propostas atribuídas à campanha está reduzir o número de ministérios, hoje indicado como 38, para uma faixa de 25 ou 26. A ideia mais ambiciosa é uma iniciativa chamada “Super PEC”, com promessa de cortar até R$ 200 bilhões em despesas primárias. A proposta, conforme apresentada no debate eleitoral, ainda exigiria detalhamento sobre quais gastos seriam afetados e como as mudanças seriam aprovadas.
Lula defende a continuidade de uma política que combina investimento público, estímulo à produção, crédito de bancos públicos e programas de renda. O governo também aposta que crescimento e arrecadação podem ajudar a equilibrar as contas sem um ajuste profundo que pressione políticas sociais. Essa abordagem preserva instrumentos de atuação estatal, mas depende de receitas e de uma trajetória de despesas compatível com as regras fiscais.
O que pode mudar para quem vive do Orçamento
As diferenças entre os projetos não se resumem ao tamanho do Estado. Um corte rápido pode abrir espaço fiscal, mas sua viabilidade depende de quais despesas serão reduzidas, do apoio no Congresso e dos efeitos sobre serviços e investimentos. Já a estratégia de preservar programas e apostar no crescimento pode proteger políticas públicas, mas fica exposta a frustrações de receita e a bloqueios caso as metas não se sustentem.
O próximo governo também terá de lidar com a implementação da reforma tributária sobre o consumo e com decisões sobre prioridades no Orçamento de 2027. Para o cidadão, os efeitos podem aparecer na oferta de serviços, no ritmo de obras, nos impostos e nas condições de crédito. O resultado eleitoral definirá qual caminho será tentado; transformar a promessa em política dependerá de negociação legislativa e de números que fechem.
Uma decisão que começa antes da posse
A diferença entre a previsão oficial e a projeção independente dá a dimensão do teste: qualquer plano econômico precisará explicar como fecha as contas, não apenas quais programas pretende lançar ou preservar. A eleição escolhe a orientação política, mas as primeiras decisões sobre bloqueios, receitas e prioridades podem surgir antes mesmo do início formal do mandato.
Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:
- https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/economia-flavio-lula-segundo-turno/
- https://www12.senado.leg.br/ifi/publicacoes-1/relatorio/2026/setembro/ploa-2027-e-o-risco-de-descumprimento-da-meta-fiscal-nas-contas-da-ifi
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cm20v1y71kweo
- https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/macroeconomia/ifi-do-senado-ve-risco-a-meta-de-2027-e-necessidade-de-contingenciamento/