Próximo mandato de Lula põe regras digitais na agenda, sem alterar a lei agora

Próximo mandato de Lula põe regras digitais na agenda, sem alterar a lei agora

No discurso de 25 de outubro, o presidente reeleito também prometeu discutir a atuação das plataformas e apontou desafios que dependem do Congresso.

Redação ·

A fala de Luiz Inácio Lula da Silva após a reeleição, em 25 de outubro, recolocou a regulação das plataformas digitais entre as prioridades políticas do próximo mandato. O presidente defendeu que delitos cometidos pela internet recebam tratamento equivalente ao de condutas fora dela e criticou o que chamou de interferência de empresas digitais na disputa eleitoral. O pronunciamento, porém, não anunciou uma nova lei nem alterou as regras em vigor.

O que já vale para crimes praticados online

O ambiente virtual não funciona como uma zona sem lei. Condutas como ameaça, fraude, perseguição e crimes contra a honra podem ser investigadas e punidas com base no Código Penal e em normas específicas, desde que os fatos preencham os requisitos previstos para cada infração.

Há também regras criadas para situações ligadas diretamente à tecnologia. A Lei nº 14.155, de 2021, por exemplo, endureceu penas para invasão de dispositivos e fraudes eletrônicas, incluindo modalidades de furto e estelionato cometidas pela internet. O Estatuto da Criança e do Adolescente e a legislação sobre violência doméstica também alcançam crimes e abusos praticados por meios digitais.

Isso não significa que toda publicação falsa ou ofensiva seja automaticamente crime. A responsabilização depende do conteúdo, da intenção quando exigida pela lei, das circunstâncias e das provas. A declaração de Lula expressa uma defesa política de aplicação efetiva das normas; não estabelece, por si só, novas infrações ou penas.

A diferença entre punir delitos e regular empresas

A fala presidencial reúne dois debates que se cruzam, mas não são iguais. Um trata da investigação e punição de quem comete crimes usando a internet. Outro envolve os deveres das empresas que administram redes sociais, serviços de busca e aplicativos: como devem agir diante de conteúdos ilícitos, que informações precisam divulgar e quais mecanismos de transparência devem seguir.

O Marco Civil da Internet, Lei nº 12.965/2014, continua como referência geral para direitos e deveres na rede, incluindo privacidade, guarda de registros e responsabilidade de provedores. Ele não impede a aplicação da legislação penal. Ao mesmo tempo, a responsabilidade das plataformas por conteúdo publicado por terceiros tem regras próprias e segue sendo objeto de debate jurídico e político.

O que depende de decisão política

Uma mudança ampla nas obrigações das plataformas ou a criação de novos crimes e penalidades exige base legal. O Congresso pode discutir projetos sobre transparência, moderação, publicidade política e responsabilidade de serviços digitais; propostas em tramitação, contudo, não têm força de lei apenas por existirem. A aplicação de novas regras também pode exigir definições administrativas e procedimentos de fiscalização.

Assim, o discurso de vitória funciona como sinal de prioridade para o governo que começa, não como ato normativo. Para transformar a promessa em política pública, será necessário conhecer o texto de eventuais propostas, o caminho de negociação com deputados e senadores e o alcance das regras que vierem a ser aprovadas.

Por que o tema afeta os usuários

A discussão tem consequências práticas para quem usa redes e aplicativos: pode influenciar a rapidez com que denúncias são avaliadas, a preservação de provas, a transparência de anúncios e os limites impostos à moderação de conteúdo. Regras mal definidas podem tanto dificultar o combate a abusos quanto afetar a liberdade de expressão e a privacidade.

O próximo passo relevante, portanto, será acompanhar medidas concretas do Executivo e a tramitação de propostas no Legislativo. Até que haja mudança legal ou decisão judicial aplicável, permanecem em vigor as normas atuais. A reeleição de Lula dá peso político à agenda, mas o resultado dependerá de como o governo apresentará suas propostas e de como o Congresso deliberará sobre elas.

Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:

  1. https://www.estadao.com.br/tecmundo/big-techs/crime-no-mundo-digital-tem-que-ser-tratado-igual-ao-crime-na-vida-real-diz-lula-apos-reeleicao/
  2. https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-10/lula-agradece-votos-e-diz-que-teve-que-vencer-intromissao-vinda-de-fora
  3. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14155.htm
  4. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l12965.htm
  5. https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/10/25/lula-fala-apos-ser-reeleito-presidente-da-republica.ghtml