Investimento industrial no Brasil esbarra em previsibilidade, crédito e qualificação
Flávio Guimarães, presidente da Corning para América Latina e Caribe, defende horizonte estável para projetos de longo prazo, enquanto entidades apontam juros e transição tributária como pressões adicionais.
Redação ·
A continuidade dos investimentos industriais no Brasil depende de mais do que oportunidades de mercado: exige condições para as empresas projetarem custos, planejar infraestrutura e preparar profissionais. Em artigo publicado nesta segunda-feira, 26 de outubro, Flávio Guimarães, presidente da Corning para América Latina e Caribe, defende uma agenda de longo prazo para dar segurança às decisões empresariais. O debate ganha peso em meio às cobranças do setor por estabilidade econômica e regras previsíveis.
Planejamento além dos ciclos políticos
A avaliação de Guimarães reúne quatro pilares: previsibilidade regulatória, infraestrutura, qualificação profissional e inovação. A tese é que decisões de investimento, muitas vezes desenhadas para vários anos, ficam mais difíceis quando as regras mudam sem tempo suficiente para adaptação ou quando as empresas não conseguem estimar seus custos futuros.
Isso não significa congelar normas. O argumento é que alterações sejam organizadas, comunicadas com antecedência e acompanhadas de transições claras. Essa previsibilidade importa porque projetos industriais envolvem aquisição de máquinas, contratação e treinamento de equipes e compromissos com fornecedores — despesas cujo retorno costuma ocorrer ao longo do tempo.
O custo do dinheiro também pesa
A agenda estrutural convive com fatores imediatos. Em levantamento publicado em outubro, empresários e representantes setoriais ouvidos pela Folha defenderam ajuste fiscal, segurança jurídica e maior previsibilidade para o próximo ciclo de governo. O custo do crédito aparece como obstáculo prático: juros elevados tornam mais caro financiar capital de giro e ampliar a capacidade produtiva.
A Fecomercio-SP também apontou a combinação de juros altos, incerteza tributária e baixa produtividade como fonte de pressão sobre negócios, sobretudo os de menor porte. A transição para o novo sistema tributário requer atenção adicional, porque mudanças em procedimentos de cobrança e recolhimento podem afetar o caixa das empresas enquanto elas adaptam seus sistemas.
Infraestrutura e tecnologia conectadas
A indústria atual depende de redes confiáveis de energia e telecomunicações, além de logística eficiente e capacidade de processamento de dados. Automação e inteligência artificial podem elevar a produtividade, mas sua adoção requer conectividade, equipamentos e trabalhadores preparados para operar novos processos.
O desafio não se limita à pesquisa científica. Aproximar universidades, centros tecnológicos e empresas ajuda a converter conhecimento em produtos e melhorias operacionais. Inovar também pode significar reduzir desperdícios, reorganizar etapas de produção ou usar materiais de forma mais eficiente — mudanças que podem beneficiar empresas que não criam tecnologias inéditas.
O que está em jogo para o país
O investimento em infraestrutura é outro gargalo. Uma reportagem de agosto estimou que o Brasil precisaria de mais de R$ 500 bilhões anuais para atender às necessidades do setor, ao mesmo tempo que registrou cautela empresarial diante de juros, incertezas e mudanças regulatórias. O número ajuda a dimensionar a distância entre as necessidades de modernização e a capacidade de financiar projetos.
Para o setor produtivo, portanto, não há uma medida isolada capaz de resolver o problema. Crédito menos oneroso, regras estáveis, infraestrutura adequada e formação profissional se reforçam mutuamente. Sem energia, logística e conectividade, a tecnologia perde alcance; sem trabalhadores qualificados, a modernização pode avançar mais lentamente.
A discussão também tem consequência direta para o emprego e a competitividade: quando projetos são adiados, deixam de avançar possíveis ganhos de produção e novas oportunidades de trabalho. O desafio para governos e empresas será transformar essas prioridades em políticas e investimentos contínuos, capazes de atravessar mudanças de administração e de conjuntura.
Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:
- https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/o-que-o-setor-produtivo-espera-para-continuar-investindo-no-brasil/
- https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/10/economistas-ceos-e-lideres-setoriais-cobram-ajuste-fiscal-e-previsibilidade-no-4o-mandato-de-lula.shtml
- https://fecomercio.com.br/debates/reforma-tributaria-juros-altos-e-inseguranca-juridica-desafiam-os-negocios/
- https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/08/12/guerras-e-eleicao-no-brasil-elevam-cautela-para-investimentos-em-infraestrutura-pais-precisa-de-mais-de-r-500-bilhoes-anuais-para-o-setor.ghtml