Dólar a R$ 5,40 e juros longos pressionam os planos de Lula
Na sessão de 26 de outubro, o Ibovespa recuou 13,88% e as projeções do Focus ainda não captavam a reação posterior à eleição.
Redação ·
A reação do mercado à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva apareceu de forma imediata nos preços: na segunda-feira, 26 de outubro, o dólar comercial subiu 8,21% e fechou a R$ 5,4027, enquanto o Ibovespa perdeu 13,88%. A turbulência recoloca no centro do debate o custo do crédito e a capacidade do próximo governo de equilibrar despesas, dívida e crescimento.
O movimento reflete a avaliação de investidores sobre os riscos econômicos à frente, não uma mudança instantânea nos fundamentos do país. A trajetória dos próximos dias dependerá, entre outros fatores, das sinalizações do governo sobre as contas públicas e de como as expectativas de inflação e juros serão revistas.
Uma sessão de forte aversão ao risco
Durante o pregão, o Ibovespa chegou a cair mais de 17%, e a B3 interrompeu temporariamente as negociações pelo mecanismo de circuit breaker. O índice encerrou o dia aos 176.608 pontos. O dólar chegou a R$ 5,60 durante a manhã, antes de fechar abaixo desse pico.
A diferença entre a maior queda intradiária e o resultado de fechamento é importante: os números descrevem momentos distintos da sessão. Ainda assim, a perda diária da bolsa e a valorização da moeda americana mostram a intensidade da reprecificação dos ativos brasileiros após o resultado eleitoral.
O Focus não incorporava o choque do pregão
As estimativas do Boletim Focus divulgadas em 26 de outubro foram coletadas até sexta-feira, dia 23, antes da eleição e da movimentação de segunda-feira. Portanto, elas servem como retrato das expectativas anteriores ao resultado, não como medida da reação dos analistas ao novo cenário.
Naquele levantamento, a mediana para o IPCA de 2026 caiu de 5,22% para 5,19%, enquanto a projeção de crescimento econômico recuou de 1,83% para 1,80%. A estimativa para a Selic no fim do ano permaneceu em 13,25%. Essas projeções podem mudar em novas rodadas, mas não devem ser interpretadas como consequência da sessão de segunda-feira, pois foram registradas antes dela.
Dívida e juros afetam o custo do crédito
A preocupação fiscal ganha peso porque o endividamento público elevado torna mais sensível o custo de financiamento do governo. Quando investidores exigem remuneração maior para comprar títulos de longo prazo, as taxas de mercado podem subir e encarecer empréstimos para empresas e famílias, mesmo que a taxa básica não mude imediatamente.
Esse canal importa para a atividade econômica: negócios que dependem de capital de giro ou de financiamento para investir podem adiar projetos, enquanto consumidores enfrentam condições de crédito menos favoráveis. A pressão cambial também pode elevar preços de produtos importados e de insumos cotados em dólar, embora o efeito sobre a inflação dependa da duração e da intensidade da desvalorização.
Os próximos sinais serão decisivos
A reação inicial não determina, por si só, a trajetória da economia. Investidores acompanharão as decisões orçamentárias, eventuais medidas de controle de despesas e as mensagens da equipe econômica. O desafio do governo será apresentar um plano crível para as contas públicas sem ignorar os efeitos de um aperto excessivo sobre o crescimento e o emprego.
Para o Banco Central, câmbio e expectativas de inflação entram no conjunto de informações que orienta a política monetária. Uma alta persistente dos preços ou a piora das expectativas pode reduzir o espaço para cortes de juros. Já uma melhora na percepção fiscal pode aliviar parte da pressão sobre títulos, crédito e ativos brasileiros. As próximas revisões do Focus e o comportamento dos juros futuros ajudarão a mostrar se o choque foi passageiro ou se mudou as condições financeiras por mais tempo.
Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:
- https://www.gazetadopovo.com.br/economia/vitoria-lula-perspectivas-economicas/
- https://valorinveste.globo.com/mercados/moedas-e-juros/noticia/2026/10/26/focus-reduz-projecoes-para-inflacao-e-dolar-mas-ainda-nao-reflete-resultado-da-eleicao.ghtml
- https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/10/26/mercado-financeiro-reage-a-vitoria-de-lula-com-queda-da-bolsa-de-valores-e-alta-do-dolar.ghtml
- https://www.estadao.com.br/einvestidor/cenarios-e-mercado/virada-de-lula-faz-mercado-parar-e-juros-subirem-tesouro-direto-atrasa-abertura-em-uma-hora/