Dependência da Cavendish expõe lavouras ao fungo TR4

Dependência da Cavendish expõe lavouras ao fungo TR4

A FAO registrava a doença em 17 países em 2025, enquanto o Brasil permanecia entre os produtores sob risco de introdução.

Redação ·

A banana que domina o comércio internacional depende de uma base genética estreita: boa parte das plantações comerciais cultiva a Cavendish, variedade reproduzida por clonagem. Essa uniformidade facilita a produção e a distribuição, mas também deixa extensas áreas expostas a uma mesma ameaça. O fungo conhecido como TR4 já foi confirmado em diferentes regiões do mundo; no Brasil, as fontes consultadas o classificam como risco, sem confirmação de presença.

A preocupação não significa que a fruta vá desaparecer das prateleiras de imediato. O alerta é sobre a vulnerabilidade de um modelo produtivo concentrado em poucas variedades e sobre a dificuldade de recuperar áreas onde o patógeno se instala.

Uma doença que permanece no solo

O TR4, sigla para Raça Tropical 4 da murcha-de-Fusarium, ataca o sistema vascular da planta e compromete a circulação de água e nutrientes. O fungo pode persistir no solo por muitos anos, o que torna a contenção especialmente difícil depois que uma área é contaminada. Máquinas, ferramentas, calçados, água e material de plantio podem contribuir para transportar solo infectado.

A ameaça tem um precedente histórico. No século passado, a variedade Gros Michel perdeu espaço no comércio internacional depois que outra linhagem da doença devastou plantações. A Cavendish ganhou protagonismo por resistir à cepa que atingia a Gros Michel, mas essa proteção não se estende ao TR4.

O risco de apostar em uma só variedade

A clonagem gera plantas com características comerciais previsíveis, como aparência e amadurecimento mais uniformes. Em contrapartida, reduz a diversidade genética disponível nas grandes lavouras. Se um patógeno consegue infectar uma planta, muitas outras cultivadas com o mesmo material podem compartilhar a vulnerabilidade.

Esse modelo também limita a resposta dos produtores: uma propriedade afetada pode precisar interromper o cultivo de bananas suscetíveis e investir em medidas de contenção e mudança de variedade. O efeito potencial não é apenas agrícola. Regiões dependentes da cultura podem enfrentar perdas de renda e custos adicionais de vigilância e manejo.

Brasil está sob risco, não entre os casos confirmados

A FAO informou em 2025 que o TR4 havia sido confirmado em 17 países. Na América Latina, a Colômbia aparece entre os países com registros, enquanto Brasil, Equador, Peru e Panamá foram apontados como produtores sob risco elevado. Essa classificação não equivale a uma detecção no território brasileiro.

A distinção é importante para evitar alarmismo e, ao mesmo tempo, reforçar a prevenção. O monitoramento de plantações, o uso de mudas sadias e a higienização de equipamentos ajudam a reduzir a chance de introdução e propagação. Como o fungo pode permanecer no solo, agir antes da confirmação de um foco é decisivo.

Diversificar é parte da resposta

Pesquisadores buscam variedades resistentes a partir de melhoramento genético e de características encontradas em bananas silvestres. Também há estudos com biotecnologia: uma linhagem Cavendish modificada com o gene de resistência RGA2 recebeu aprovação para produção e consumo na Austrália, segundo estudo publicado em 2025. Isso representa um avanço, mas não uma solução instantânea para todos os países; regulamentação, aceitação, desempenho no campo e durabilidade da resistência ainda importam.

Outra frente é ampliar o número de variedades cultivadas. Pesquisas genômicas podem ajudar a localizar genes de resistência e acelerar o desenvolvimento de plantas adaptadas a diferentes regiões. A mudança climática acrescenta incerteza ao cenário, pois altera condições de cultivo e pode agravar o estresse das plantas; seus efeitos sobre a doença, porém, dependem de cada ambiente e não devem ser tratados como uma causa única.

A proteção da banana, portanto, passa por combinar biossegurança, vigilância e diversidade genética. O objetivo não é apenas encontrar uma substituta para a Cavendish, mas reduzir a dependência de um único tipo de planta — e, com isso, tornar a produção menos vulnerável a uma próxima doença.

Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:

  1. https://super.abril.com.br/ciencia/por-que-as-bananas-estao-ameacadas-de-extincao/
  2. https://openknowledge.fao.org/server/api/core/bitstreams/8c53fac1-1ecc-4014-b675-7773ab2dbd0c/content
  3. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/pbi.70178
  4. https://www.freshplaza.com/africa/article/9820541/we-want-to-develop-new-varieties-that-diversify-production-and-address-those-threats/