Custo do agro sobe com a guerra e corrói lucros, mesmo com safra recorde
Alta do petróleo, encarecimento de fertilizantes e juros mais altos comprimem margens do produtor e elevam a inadimplência, apesar da safra recorde.
Redação ·
Lead A safra brasileira de grãos bateu recorde, mas o lucro dos produtores encolheu: a escalada do conflito no Oriente Médio, o avanço do El Niño e a alta dos juros pressionaram diesel, fertilizantes e frete, corroendo margens e fazendo a inadimplência rural disparar.
Pressão internacional em insumos e combustível Os preços do petróleo e do frete reagiram à instabilidade geopolítica e se traduziram em custos mais altos para o campo. Diesel mais caro eleva o gasto com colheita, transporte e armazenagem; a valorização do petróleo também pressiona os preços dos fertilizantes, cuja cadeia global é sensível a rotas e custos logísticos.
Produtores contam que a reposição de estoques ficou mais onerosa e que a volatilidade empurra para cima o custo de custeio — um efeito que se soma à alta dos juros, ampliando a pressão sobre capital de giro.
Uma safra grande, margens menores Apesar da colheita ampliada — a Conab estima cerca de 180 milhões de toneladas de soja e 358 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26 —, a receita não tem compensado o aumento dos custos. Indicadores do mercado mostram queda no preço da soja em reais na média de maio, enquanto custos fixos e variáveis sobem.
O resultado é uma equação difícil: mais produto disponível no mercado, mas menos ganho por hectare quando se consideram fertilizantes, diesel, crédito e logística.
Crédito em tensão e medidas emergenciais O aperto financeiro apareceu nas estatísticas: a inadimplência do crédito rural atingiu 12,7% em março de 2026, ante cerca de 4,6% um ano antes, segundo dados do Banco Central. A deterioração da carteira levou bancos e agentes financeiros a reverem riscos e aumentar pedidos de renegociação.
No campo político e das políticas públicas, o BNDES liberou linhas para liquidação de dívidas rurais na ordem de R$ 7,5 bilhões, e há projetos em debate para usar recursos do Fundo Social do Pré‑Sal para amortizar passivos — medidas que buscam evitar uma crise de crédito mais ampla.
Riscos climáticos: El Niño no horizonte A perspectiva climática amplia a apreensão: a NOAA apontou probabilidades elevadas de El Niño para os próximos meses, o que costuma trazer chuvas acima da média ao Sul e maior seca em partes do Centro‑Norte e Cerrado. Para culturas como trigo, aveia e cevada o efeito é mais imediato; para soja e milho, o impacto pode se materializar na próxima safra se a seca atingir o período crítico de desenvolvimento.
O que os produtores podem fazer Diante do cenário, várias estratégias têm sido adotadas: redução de custos por meio de insumos biológicos e adubação orgânica, diversificação com pecuária em integração lavoura‑pecuária, e renegociação de dívidas para alongar vencimentos. Essas medidas ajudam, mas não eliminam a dependência de condições externas, como preço internacional e clima.
Por que isso importa O agronegócio continua sendo pilar das exportações e da atividade econômica, mas o aperto nas margens e o aumento da inadimplência podem reduzir a capacidade de investimento do setor, limitar oferta de crédito e, em última instância, afetar empregos e receitas nas regiões produtoras.
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- https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/05/18/custo-do-agro-sobe-com-a-guerra-e-corroi-lucro-de-produtores-apesar-de-safra-recorde.ghtml
- https://www3.bcb.gov.br/ (séries sobre crédito rural)
- https://www.conab.gov.br/ (estimativas da safra 2025/2026)
- https://www.serasaexperian.com.br/ (relatórios sobre inadimplência e recuperação judicial)
- https://www.noaa.gov/ (ENSO Outlook e probabilidades do El Niño)