O cuco virou a assinatura sonora dos relógios da Floresta Negra
A tradição alemã ganhou força no século 18, mas registros de relógios com esse chamado são ainda mais antigos e deixam a autoria em disputa.
Redação ·
O chamado de duas notas do cuco parece feito para marcar a passagem das horas: é curto, reconhecível e pode ser imitado por um mecanismo simples. Na Floresta Negra, região montanhosa do sudoeste da Alemanha, essa combinação ajudou a transformar um relógio artesanal em símbolo local — embora a história da invenção seja menos definida do que a tradição sugere.
Uma história anterior à Floresta Negra
A associação entre o pássaro e os relógios não começou necessariamente nas oficinas da região. Um registro escrito de 1629, atribuído ao comerciante de Augsburg Philipp Hainhofer, descreve um relógio que imitava o canto do cuco. Isso antecede a consolidação da produção relojoeira na Floresta Negra, situada sobretudo na segunda metade do século 17.
Já a fabricação regional de relógios com cuco se firmou por volta de meados do século 18. O nome de Franz Anton Ketterer, de Schönwald, aparece com frequência como o do inventor, mas a atribuição não é conclusiva. Relatos históricos publicados em épocas diferentes apresentam outros artesãos como pioneiros, e não há documentação definitiva que resolva a disputa.
Essa incerteza não diminui o papel da região. A Floresta Negra desenvolveu uma tradição de trabalho em madeira e de produção de relógios que, com o tempo, deu identidade própria ao modelo e ampliou sua circulação para além das comunidades locais.
Duas notas, foles e apitos
Nos modelos tradicionais, a voz do pássaro é produzida por dois pequenos apitos de madeira, cada um ligado a um fole. Quando o mecanismo do relógio aciona os foles, o ar atravessa os tubos em sequência e cria duas alturas diferentes, numa imitação do chamado mais conhecido do cuco.
O pássaro esculpido também pode se mover junto com o som: uma portinhola se abre, e a figura aparece para marcar as horas. Não é uma gravação, mas uma solução mecânica que combina movimento, ar e desenho. A simplicidade do canto facilita a reprodução e ajuda a explicar por que ele se encaixou tão bem nesse tipo de relógio.
O pássaro que anuncia a estação
A espécie mais ligada ao som é o cuco-canoro, Cuculus canorus. Presente em partes da Europa, Ásia e África, ele é migratório. Na Alemanha, costuma ser associado à primavera e aos meses mais quentes, quando retorna após passar o inverno em outras áreas. Seu chamado, portanto, evocava não apenas um animal conhecido, mas também uma mudança perceptível no calendário natural.
O famoso “cuco” é sobretudo o canto territorial e de corte do macho; a espécie tem outros sons. Ainda assim, a sequência curta e repetida tornou-se uma espécie de assinatura acústica. Para um relógio doméstico, era uma forma de anunciar a hora sem depender de uma melodia longa ou de um mecanismo complexo.
Da oficina rural ao ícone alemão
A produção relojoeira ofereceu uma atividade complementar a famílias de artesãos e agricultores da Floresta Negra. A reputação do relógio cresceu com a fabricação e a venda de peças de madeira, e versões decoradas ajudaram a fixar sua imagem no imaginário popular. O formato conhecido hoje como chalé ganhou força especialmente no século 19.
Assim, a escolha do cuco não tem uma explicação única documentada. O canto fácil de reproduzir, a presença sazonal da ave e a habilidade dos relojoeiros locais se combinaram ao longo do tempo. Mais do que provar quem criou o primeiro exemplar, a história mostra como uma solução técnica simples pode virar tradição cultural e marca de uma região.
Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:
- https://super.abril.com.br/coluna/oraculo/por-que-o-cuco-foi-escolhido-como-o-passaro-do-relogio/
- https://www.blackforest-highlights.com/experience/culture-tradition/cuckoo-clock
- https://www.visit-bw.com/en/tips-and-stories/the-history-of-the-famous-cuckoo-clocks
- https://schneider-clocks.com/en/pages/history