Brasil expõe o risco de apostas concentradas nos mercados emergentes
O alerta ganhou força após o Ibovespa cair 13,88% em 26 de outubro e os juros dos títulos brasileiros dispararem.
Redação ·
A queda dos ativos brasileiros na semana passada virou um teste de estresse para estratégias que vinham atraindo investidores em vários mercados emergentes. Em alerta publicado neste domingo, 1º de novembro, gestores internacionais apontam que posições muito concentradas podem acelerar perdas quando uma surpresa política ou econômica muda o humor do mercado.
O sinal não se limita ao Brasil. Gestores e bancos citados na análise chamam atenção para apostas em ações ligadas à inteligência artificial na Ásia, títulos húngaros, rand sul-africano e papéis de países de fronteira. A preocupação comum é que muitos investidores estejam expostos às mesmas operações — e tentem sair ao mesmo tempo se as condições piorarem.
O que o choque brasileiro mostrou
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 25 de outubro, contrariou as expectativas que orientavam parte das posições de mercado. No pregão seguinte, o Ibovespa recuou 13,88%, para 176.608 pontos, enquanto o real e os títulos públicos também sofreram pressão. A turbulência tornou visível a rapidez com que uma aposta popular pode se inverter.
Antes do resultado eleitoral, juros elevados e preços firmes de commodities ajudavam a atrair recursos estrangeiros para o Brasil. Quando a expectativa política mudou, investidores tiveram de rever posições montadas justamente com base nesse cenário. O episódio não prova que todos os mercados emergentes terão o mesmo desempenho, mas serve como lembrete de que entradas de dinheiro em uma direção podem ampliar a saída quando surge uma surpresa.
Onde os gestores veem concentração
Na dívida de países emergentes, um indicador da Bloomberg citado na reportagem apontava prêmio de 210 pontos-base sobre títulos comparáveis do Tesouro dos Estados Unidos. A média dos cinco anos anteriores era de 315 pontos-base. Em termos simples, esse prêmio menor indica que os investidores aceitavam receber menos a mais pelo risco de emprestar a esses países — uma margem que pode ficar desconfortável se a percepção de risco mudar.
A Hungria aparece como outro exemplo: o volume de títulos e letras do Tesouro em mãos estrangeiras chegou a 11,1 trilhões de forints, cerca de US$ 34 bilhões, no mês anterior. Na África do Sul, posições líquidas compradas no rand somavam aproximadamente US$ 688 milhões, perto do nível mais alto desde o fim de 2024. Parte dessas operações é conhecida como carry trade: captar recursos onde os juros são baixos e investir em ativos com retornos maiores. A estratégia pode render enquanto o diferencial de juros compensa, mas fica vulnerável a mudanças cambiais e à redução do apetite por risco.
O risco não é uma previsão de queda
Os alertas também alcançam o setor de tecnologia. Ações asiáticas ligadas à cadeia de semicondutores recuaram quase 25% desde a máxima de junho, segundo o texto publicado pelo InfoMoney. Investidores acompanham se os gastos de grandes empresas de computação em nuvem com inteligência artificial vão se converter em resultados sustentáveis; uma desaceleração poderia afetar fornecedores da região. A possibilidade de uma oferta pública inicial da Anthropic sem o entusiasmo esperado também foi apontada como um risco para o sentimento do setor.
Nada disso significa que uma liquidação generalizada seja inevitável. Rendimentos ainda atraentes e resultados corporativos podem continuar sustentando parte dessas operações. O ponto dos gestores é outro: quando o mercado se inclina demais para uma mesma aposta, notícias sobre juros nos Estados Unidos, tensões geopolíticas ou resultados empresariais podem provocar uma retirada rápida de recursos.
Para quem acompanha investimentos, o episódio reforça a importância de olhar além do retorno recente e entender quais riscos estão por trás de cada ativo. Uma aplicação que parece diversificada por país pode depender dos mesmos fatores — como juros globais, câmbio e apetite por risco — que outras posições da carteira.
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- https://www.infomoney.com.br/mercados/tombo-no-brasil-acende-alerta-de-gestores-internacionais-sobre-apostas-em-emergentes/
- https://www.infomoney.com.br/onde-investir/real-acoes-e-renda-fixa-derretem-apos-reeleicao-de-lula-o-que-fazer-agora/
- https://www.infomoney.com.br/mercados/bancos-reduzem-exposicao-ao-brasil-apos-eleicao-e-buscam-protecoes-na-bolsa/
- https://www.bloomberglinea.com.br/mercados/virada-de-lula-reverte-rali-eleitoral-e-derruba-ativos-brasileiros-antes-da-abertura-da-b3/