Brasil ainda captura pouco valor das reservas minerais na transição energética
A nova política nacional, criada pela Lei 15.506 de setembro, prevê medidas para ampliar beneficiamento e transformação mineral no país.
Redação ·
Ter reservas de minerais usados em baterias, painéis solares e outras tecnologias não garante que um país controle as etapas mais lucrativas dessa cadeia. No Brasil, a extração tem peso, mas o refino e a fabricação de componentes seguem como desafios para transformar recursos naturais em atividade industrial de maior valor.
A diferença está no que acontece depois da mina. O minério pode render exportações e royalties; já o processamento e a produção de materiais para baterias, ímãs e equipamentos exigem tecnologia, financiamento e capacidade industrial. É nessa parte intermediária que se concentram empresas e instalações de poucos países, com a China em posição dominante.
Uma análise publicada pelo Oxford Review of Economic Policy estima que a China responde por algo entre 60% e 80% da oferta mundial de minerais críticos processados. A faixa reúne minerais e etapas diferentes: não significa que a participação chinesa seja igual em todos os produtos, nem que refino e fabricação de componentes sejam a mesma atividade. Ainda assim, ajuda a mostrar por que países que extraem matérias-primas podem depender de instalações e conhecimento controlados no exterior.
O que muda com a nova política brasileira
A Lei 15.506, sancionada em 16 de setembro de 2026, instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e o Conselho Nacional para Industrialização desses recursos. O texto inclui pesquisa, lavra, beneficiamento, transformação mineral e mineração urbana entre os objetivos da política.
A lei cria uma estrutura para orientar a atuação do governo, mas não comprova, por si só, que novas fábricas, financiamento ou transferência de tecnologia já estejam em funcionamento. A classificação dos minerais e parte dos critérios dependem de regulamentação. O passo seguinte, portanto, é transformar o desenho legal em medidas concretas para a indústria.
O tema não é exclusivo do Brasil. Países produtores tentam atrair processamento para dentro de suas fronteiras, mas restringir a exportação de minério bruto não resolve automaticamente a falta de tecnologia ou de empresas locais. Mesmo quando uma unidade industrial é construída no país, o controle do capital e do conhecimento pode continuar concentrado em companhias estrangeiras.
Para o Brasil, a disputa envolve mais do que vender minério. A procura de Estados Unidos e União Europeia por fornecedores alternativos pode ampliar o espaço de negociação, mas o resultado depende de acordos e investimentos que desenvolvam capacidade produtiva local. Sem esse elo, o país pode continuar fornecendo recursos para a transição energética enquanto importa materiais e componentes de maior valor agregado.
Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:
- https://www.terra.com.br/noticias/minerais-criticos-como-os-gargalos-produtivos-e-tecnologicos-afetam-o-brasil-e-o-sul-global,257d66063dfdca5d81ddcb2ec36b533a44gnvji7.html
- https://www.gov.br/mme/pt-br/acesso-a-informacao/legislacao/leis/lei-n-15-506-2026.pdf
- https://academic.oup.com/oxrep/article/42/1/1/8750864
- https://www.camara.leg.br/noticias/1315488-ministro-garante-absoluta-prioridade-na-implementacao-da-politica-de-minerais-criticos-e-estrategicos