Automação pode elevar a produção sem ampliar vagas, alerta Alexandre Nigri

Automação pode elevar a produção sem ampliar vagas, alerta Alexandre Nigri

Em artigo publicado em 27 de outubro, o economista defende que IA e robótica podem acelerar a produtividade, mas estudos ainda apontam transformação de tarefas, não desaparecimento generalizado do trabalho.

Redação ·

A expansão da inteligência artificial e da robótica pode permitir que empresas produzam mais sem contratar na mesma proporção. Essa é a hipótese apresentada pelo economista Alexandre Nigri em artigo publicado em 27 de outubro de 2026: uma mudança que, se confirmada, pressionaria modelos de emprego, renda e arrecadação construídos em torno do trabalho humano. A possibilidade é relevante, mas não equivale a uma previsão comprovada de desemprego em massa.

O que diferencia esta onda tecnológica

Nas revoluções anteriores, máquinas substituíram tarefas físicas e sistemas digitais automatizaram rotinas de escritório. Nigri argumenta que as ferramentas atuais avançam também sobre atividades cognitivas, enquanto robôs ampliam a automação em fábricas, centros logísticos e outros serviços. A combinação pode elevar a produção com equipes menores e concentrar ganhos em empresas que controlam tecnologia, dados e propriedade intelectual.

O ponto central não é afirmar que novas ocupações deixarão de surgir. A dúvida é se elas serão criadas com rapidez suficiente para absorver quem tiver tarefas automatizadas. A hipótese descrita pelo autor — chamada por ele de “Emancipação do Capital” — sugere que a expansão econômica pode depender menos do crescimento do número de trabalhadores.

Exposição não significa demissão automática

As estimativas disponíveis medem riscos e possibilidades, não demissões já ocorridas. A Organização Internacional do Trabalho calcula que cerca de um quarto dos trabalhadores do mundo está em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa. Apenas uma parcela pequena, perto de 3% do emprego global, aparece no nível mais elevado de exposição. A avaliação da entidade é que a transformação das funções tende a ser mais comum do que a substituição integral dos postos.

Essa distinção muda a leitura dos números frequentemente associados ao tema: uma ocupação pode ser afetada porque parte de suas tarefas passa a ser feita por software, sem que a profissão desapareça. O resultado depende da forma como empresas adotam as ferramentas, da demanda por seus produtos e da capacidade de trabalhadores se adaptar a novas atribuições.

Produtividade e distribuição de renda

Um estudo do Fundo Monetário Internacional estima que, em cenários distintos de adoção e ganhos de produtividade, a IA poderia elevar o nível do PIB global em cerca de 1,3% a quase 4% ao longo da próxima década. Trata-se de projeção condicionada a hipóteses, não de um resultado garantido. O próprio impacto varia conforme infraestrutura, qualificação e capacidade de incorporar a tecnologia.

Mais produção, por si só, não garante que os benefícios cheguem de forma equilibrada aos trabalhadores. Se os retornos se concentrarem em empresas e proprietários de capital, podem crescer as diferenças de renda e riqueza, mesmo que a economia avance. Por outro lado, ferramentas que complementem o trabalho podem aumentar a produtividade individual e abrir espaço para novas atividades.

O desafio para governos e empresas

A questão prática é como preparar trabalhadores para mudanças sem tratar toda inovação como ameaça nem presumir que o mercado resolverá automaticamente os custos da transição. Formação profissional, acesso a ferramentas e políticas de proteção social entram nessa discussão; também será necessário acompanhar salários, contratações e produtividade para separar previsões de efeitos observados.

A tese de Nigri deve ser lida como um alerta sobre uma possível ruptura, não como prova de que o crescimento já se desacoplou do emprego. Os próximos anos mostrarão se a tecnologia cria funções e demanda em escala suficiente — e como os ganhos serão distribuídos. Para quem trabalha, a diferença entre substituição e transformação pode depender tanto do desenho das ferramentas quanto das decisões de empresas e governos.

Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:

  1. https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/como-a-ia-e-a-robotica-podem-romper-o-vinculo-historico-entre-crescimento-economico-e-emprego/
  2. https://meetings.imf.org/en/-/media/amsm/files/am2025/imfc/ilo.pdf
  3. https://www.imf.org/en/publications/wp/issues/2025/04/11/the-global-impact-of-ai-mind-the-gap-566129
  4. https://www.oecd.org/content/dam/oecd/en/publications/reports/2026/07/recent-policy-developments-on-ai-in-the-labour-market_52d4afe2/c0ffced7-en.pdf