AfD tenta adaptar sua agenda europeia a uma possível chegada ao poder
Documento apresentado por Alice Weidel propõe renegociar tratados da União Europeia e prevê referendo se as reformas não avançarem.
Redação ·
Uma mudança de estratégia está em discussão na AfD, o partido de extrema direita da Alemanha: em vez de priorizar a saída do euro e da União Europeia, parte da sigla defende tentar reformar o bloco por dentro. A reportagem publicada nesta segunda-feira, 2 de novembro, descreve uma disputa interna que ganhou força depois do avanço eleitoral do partido, mas não uma decisão já aprovada por toda a legenda.
O movimento combina duas metas difíceis de conciliar: preservar a crítica à integração europeia e reduzir o custo político de se apresentar como uma opção de governo. A AfD aparece como a força mais popular em pesquisas nacionais alemãs e venceu de forma histórica uma eleição regional na Saxônia-Anhalt, em setembro. Ainda assim, as demais legendas rejeitam uma coalizão com ela.
O que mudaria na relação com a União Europeia
Em outubro, a colíder Alice Weidel apresentou no Parlamento Europeu um documento chamado “New Deal para a Europa”, elaborado com aliados do grupo Europa das Nações Soberanas. A proposta deixa em segundo plano a saída imediata da UE e da moeda comum e aposta numa renegociação dos tratados para reduzir poderes compartilhados e ampliar a margem de decisão dos governos nacionais.
Entre as ideias estão permitir que países se afastem de políticas comuns em áreas como imigração e gastos com defesa, além de cobrar com mais rigor as regras orçamentárias. O texto também mantém aberta a possibilidade de um referendo alemão sobre o rumo europeu do país caso as reformas não avancem. Portanto, não é uma conversão da AfD ao projeto atual da União: é uma tentativa de mudar seus termos, mantendo a ruptura como alternativa.
A diferença importa porque o programa partidário vigente ainda defendia deixar a zona do euro e substituir a estrutura atual da UE por outro arranjo. Uma proposta estratégica, por si só, não altera esse programa. Para isso, seria necessário obter apoio interno e formalizar a mudança nos processos partidários.
O cálculo eleitoral por trás da mudança
A AfD nasceu em 2013, durante a crise do euro, com oposição à forma como a União Europeia lidava com os resgates financeiros e com a moeda única. Com o tempo, imigração e identidade nacional passaram a ocupar mais espaço na sua agenda. Agora, integrantes mais jovens argumentam que insistir numa saída da UE ou do euro pode tornar ainda mais difícil construir alianças e ampliar a aceitação do partido.
O obstáculo é concreto: após ficar em segundo lugar na eleição federal de 2025, a AfD não conseguiu parceiros para formar uma coalizão. Para chegar ao governo nacional, a sigla teria de superar a recusa dos partidos tradicionais sem afastar sua base mais eurocética. A proposta tenta responder a esse dilema, mas o debate sobre a moeda comum segue controverso dentro do próprio partido.
Uma estratégia vista em outros países
A revisão lembra movimentos de partidos nacionalistas em outros lugares da Europa. O Reagrupamento Nacional, na França, deixou de fazer da saída do euro uma bandeira central; na Itália, o Irmãos da Itália passou a perseguir seus objetivos dentro das instituições europeias depois de assumir o governo. Na Áustria, o Partido da Liberdade também suavizou parte de sua retórica antieuropeia no caminho para participar de coalizões.
Há ainda uma razão econômica para a cautela. A Alemanha depende fortemente das exportações e está integrada ao mercado europeu. Romper com o euro ou com o bloco teria consequências sobre relações comerciais e sobre a previsibilidade para empresas, embora a reportagem não quantifique um custo específico. Essa interdependência ajuda a explicar por que até setores da AfD defendem mais cooperação prática, apesar da resistência à integração política.
Por enquanto, a mudança é um sinal de pragmatismo eleitoral, não uma nova posição oficial consolidada. O próximo teste será saber se a liderança consegue transformar o documento em programa aprovado sem abrir uma crise com os membros que ainda defendem a saída.
Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:
- https://www.terra.com.br/noticias/mundo/partido-alemao-afd-repensa-suas-raizes-antieuro-a-medida-que-direita-europeia-ganha-forca,8d1a558b9f62428da48faaeefa41d651u3j6fzix.html
- https://www.reuters.com/business/media-telecom/germanys-afd-weighs-shift-anti-eu-roots-strategy-paper-shows-2026-10-05/
- https://www.politico.eu/article/alternative-for-germany-afd-exit-euro-power/
- https://www.politico.eu/article/afd-alternative-for-germany-alice-weidel-plan-downsize-eu/
- https://www.usnews.com/news/world/articles/2026-11-02/as-europes-right-advances-germanys-afd-rethinks-its-anti-euro-roots