ABES vê em gargalos digitais o teste para transformar IA em crescimento
No ABES Summit 2026, em São Paulo, também foram citados R$ 90 bilhões em investimentos potenciais em data centers e mais de 55 mil empregos até 2030.
Redação ·
A inteligência artificial pode gerar até R$ 1 trilhão adicional para a economia brasileira até 2030, mas o valor depende de condições que ainda precisam avançar. No ABES Summit 2026, realizado em São Paulo nesta terça-feira (27), a Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) apontou infraestrutura, formação profissional e mudanças nas empresas como peças necessárias para converter a tecnologia em produtividade e novos negócios.
A cifra foi apresentada como potencial, não como previsão oficial ou resultado garantido. O debate também colocou em evidência uma questão prática: a adoção de ferramentas de IA, por si só, não assegura que empresas e trabalhadores consigam capturar os ganhos prometidos.
Da experimentação ao resultado empresarial
Tania Cosentino, conselheira do International Chamber of Commerce e da WEG, levou ao encontro um dado atribuído a uma pesquisa do Boston Consulting Group (BCG): a parcela de organizações que estariam obtendo valor com IA em escala teria passado de 5% para 50% em cerca de um ano. O material publicado sobre o evento não detalha a amostra nem a metodologia, por isso o número deve ser lido como indicador apresentado no painel, e não como medição direta do efeito da tecnologia sobre o PIB.
A distância entre projetos-piloto e resultados consistentes foi um dos pontos centrais da discussão. Para a ABES, a inteligência artificial precisa entrar nas decisões de negócio e na revisão de produtos, serviços e processos, em vez de permanecer isolada nas equipes de tecnologia. Essa mudança exige que as empresas definam onde a ferramenta pode melhorar resultados e como vão medir esse efeito.
Infraestrutura e energia entram na conta
A expansão de data centers é outra condição para sustentar serviços digitais e aplicações de IA. No evento, foram mencionados cerca de R$ 90 bilhões em investimentos adicionais no setor até 2030, com potencial de criar mais de 55 mil empregos diretos e indiretos. Também foi dito que o Brasil abriga aproximadamente 1% dos data centers mundiais. São estimativas apresentadas no encontro, não uma confirmação de que todos os projetos estejam financiados ou em construção.
A infraestrutura depende de mais do que edifícios e servidores: precisa de energia, conexão à rede, equipamentos, licenciamento e profissionais especializados. O regime tributário REDATA, criado para incentivar serviços de data center, pode reduzir custos de investimento, mas não resolve sozinho esses desafios. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços associa o programa a compromissos ligados, entre outros pontos, à sustentabilidade e à pesquisa. Reportagens recentes também destacam que investidores aguardam regras de implementação e que incentivos não eliminam o tempo necessário para colocar empreendimentos em operação.
Governança precisa acompanhar a adoção
O encontro também chamou atenção para os riscos de ampliar o uso de agentes autônomos sem controles proporcionais. Segundo os indicadores apresentados por Cosentino, 42% das empresas estariam avançando na adoção dessas ferramentas até 2030, mas apenas 5% teriam controles adequados. Como não foram detalhados os critérios usados, os percentuais não permitem concluir que as demais organizações estejam operando sistemas sem segurança; apontam, contudo, para a importância de supervisão, proteção de dados e gestão de riscos.
A cibersegurança foi tratada como parte do investimento em IA, não como um complemento opcional. Quanto maior a autonomia de sistemas que acessam informações ou executam tarefas, maior a necessidade de definir responsabilidades e limites de atuação. Sem esse cuidado, falhas podem comprometer dados, operações e a confiança de clientes.
Política de longo prazo e próximos passos
O presidente da ABES, Andriei Gutierrez, defendeu uma estratégia nacional que articule infraestrutura, energia, educação, pesquisa e desenvolvimento industrial. A proposta, segundo a entidade, é criar condições para que a tecnologia seja incorporada por diferentes setores, e não apenas por empresas de tecnologia. O vice-governador de São Paulo, Felicio Ramuth, afirmou que ficará à frente de projetos de inovação e transformação digital do governo estadual; também mencionou cerca de R$ 100 bilhões em investimentos em data centers no estado.
Esses valores não devem ser somados automaticamente: podem representar categorias distintas, como investimentos anunciados ou potenciais e impacto econômico estimado. A principal medida do avanço será a capacidade de transformar projetos em operação, qualificação e ganhos concretos de produtividade. Até lá, o R$ 1 trilhão funciona como cenário de oportunidade — condicionado à execução e à coordenação entre empresas e poder público.
Quer se aprofundar nesta notícia? Leia mais sobre ela abaixo:
- https://convergenciadigital.com.br/governo/para-ter-r-1-trilhao-adicionado-ao-pib-ate-2030-pela-ia-abes-defende-estrategia-nacional-para-infraestrutura/
- https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/noticias/2025/outubro/redata-contribui-para-industrializacao-sustentavel-e-digital-do-brasil-diz-secretario-do-mdic
- https://veja.abril.com.br/economia/redata-atrai-investidores-mas-nao-acelera-obras-de-data-centers/
- https://valorinternational.globo.com/business/news/2026/10/01/investors-await-implementation-rules-of-data-center-tax-breaks.ghtml